18.11.13

E se...

um dia as nêsperas fossem tingidas de vermelho,
lambias-lhes a tinta?

9.10.13

15.3.13

Faz já um tempinho que morri.
E agora que acordei toda esquisita foram todos embora.
Vou-me deitar aqui e deixar um cheiro peçonhento de cadáver.
Se vierem não acendam a luz :P

10.4.12

Absurdo.

As palavras que não conseguem exprimir o que sinto. Há palavras mas elas não podem sair. Dá palavras Às palavras.

5.3.12

S.H.A.M.E. (Brandon McQueenies)


(Linha-metragem Azul)

nos versos-vagões que penetram a escuridão húmida do túnel,

procurei cadência, métrica e poesia
nos rostos das pessoas que pareciam dispor de tempo,
indiscrição,
para lançar olhares,
cansados, fugidios, mas ainda assim ousados e ociosos,

em direcção aos meus olhos quase quase apagados ao fim da tarde

em vão.

encontrei apenas um metro vazio.

os metropolitanenses tinham todos a vergonha na cara
e os olhos no chão
do menos de um metro quadrado que ocupavam

num dado metro,
blues em fim de linha.

estarão todos a pensar naquele pequeno crime, pecado, ou o que se quiser, em que caíram, antes de entrar na garganta - funda - da estação?!


23.2.12

Oniris Causa

sonhos,
esses colchões suspensos em que te deitas e levitas às tantas,
sonhos, esses, às tantas, suspensões da tanta lógica que te atormenta.

no interstício dos sentidos despertos-alerta,
a lógica repousa merecidamente,
virando, logo, lógica dormente

e no sonho suado,
encontras a verdade que na realidade eles chamam de quimera.

17.2.12

Dia-logos

Quero escrever coisas sim num dia não

Mas o dia não não deixa

A minha mãe não deixa

A minha mão não deixa


Vou apagar as coisas não num dia sim

Mas a borracha não deixa

A memória

E as coisas não deixam


- Deixa para lá

É só mais um dia não e

Menino sim não se queixa

Que eu cá não deixo

7.9.11

A Materia (Vaca Branca)

24.7.11

Vaca Branca - parte I

Uma manada de vacas

21.7.11

Berlin's Wetter

Sprecht mit mir!

eat, pray, love

14.7.11

La perspective

7.3.11

Fragmentos de uma noite vaga de Jack-Jacques-Jackson

Fragmentos de uma noite vaga de Jack-Jacques-Jackson

Ou Lunettes Noires Pour Nuits Blanches*

Sim, disseram-me há pouco que estou em 2011 d.c., mas não fosse o aparelho que tenho frente aos olhos a desmentir a versão romântica imaginada, acreditaria piamente estar em Março de 1968, em Paris.

Podia ter ido lá baixo buscar uma velha Olivetti à loja de material retro da esquina para encarnar melhor o arquétipo de jovem urbano «sixtie», pretensioso, a escrever um manifesto libertário qualquer para mostrar à editora independente e subversiva Gatos Pingados composta por meia dúzia de conhecidos das noitadas no café Saraband Ocidental [nota: o critério de publicação desta editora dependeria exclusivamente do «gosto» de um colaborador especial, um gato persa: apenas passaria um texto que merecesse lambidelas do decisor felino em pelo menos 1/3 das páginas mostradas], mas a loja fechou às oito da noite e são duas da manhã. Desculpa da treta, Jack. Ah, é a altura de dizer que o meu nome, pelo menos neste instante, é Jack. Se não fosse o medo - ah, afinal também padeces disso! -, podia ter tentado partir o vidro da loja e trazer um exemplar da máquina de escrever na mochila para este quarto andar onde me encontro, sem Internet, sem elevador… Falta-me a ousadia de um ladrão. Mantenho-me o menino obcecado por obedecer à moral judaico-cristã desde que entrou na catequese, aos 6 anos. «Não roubarás!», lá dizia o, salvo erro, sétimo mandamento inscrito nas tábuas de pedra entregues a Moisés. E não é que não tenho coragem para roubar? Na verdade, nos meus 33 anos de vida, ainda só surripiei uma maçã do supermercado do quarteirão. Wow, que rebelde da treta, Jack.

Acabo de tirar do leitor do computador a rodela do Petit Soldat («O Soldado das Sombras»), do Godard, para pôr a tocar o White Light/ White Heat, dos Velvet Underground. Eject-Object. Ejectar um filme. Injectar os Velvet nas veias, sem heroína, que eu cá nunca passei da «sweet jane».

Evangelho segundo O Soldado das Sombras: «Amai-vos uns aos outros», lá dizia a placa fotografada por um tal Bruno, desertor francês da guerra da Argélia, instalado em Genebra, Suíça. Não era só uma placa que o repórter Bruno, fugido, registava. Era também um casal jovial a beijar-se frente à placa. Ou o início do amour fou entre a miúda dinamarquesa recém-chegada a território gaulês, Anna Karina, e o homem da câmara, Jean-Luc, em postal ilustrado. Recorde-se o evangelho segundo São João, Jean: «Amai-vos uns aos outros». Isto, em 2011, tal como em 1968, soa a poliamor.

Às tantas, Bruno provoca o espectador ao provocar Veronika, a informadora da Front de Libération Nationale (FLN), envolvida emocionalmente com ele, um repórter metido num esquema encomendado pela extrema-direita francesa, um assassinato de um membro dessa mesma FLN. A dada altura, Bruno, o mesmo que dizer Godard, compara o Vaticano ao Comunismo. Como ele diz, ambos defendem que «somos todos irmãos». Ámen, Bruno.

Ela, a informadora, diz a Bruno que «é importante ter um ideal» e é, por isso, que está a trabalhar para a FLN. Merde, estamos realmente nos anos 60 e eu estou de pijama às riscas, e robe (que coisa mais antiquada!), com óculos de massa Ray Ban a cumprir o estereótipo de nerd pré-Internet, pseudo-cinéfilo-filho, intelectualóide, para o desmontar quando for para o tasco do bairro malhar umas minis. O John Cale está a tornar-se aborrecido a meio da trip que é este «Lady Godiva’s Operation». Apetece-me é ouvir o «Sister Ray». Passa à faixa 6, Jack.

Nunca mo disseram, por pena, mas sei o quão mal me visto. Sempre os mesmos jeans russos, os mesmo ténis reles e sujos, camisas e t-shirts sem personalidade. Se tivesse dinheiro também não me saberia vestir melhor, reconheço. O dinheiro não é desculpa, Jack. «Esse ar negligé fica-te bem», disse-me ela há uns dias para ser simpática. Eu sorri.

«Pensar tão depressa que já não se pensa em nada», pensou Bruno, enquanto estava a ser torturado pelos sequestradores – os revolucionários que gostam de «instruir» a malta para a revolução, a criança que está para vir, o ovo prestes a eclodir. «É importante ter um ideal», dizia Veronika para justificar o seu engajamento político. Dizes isso hoje a alguém, Veronika, e esse alguém ri-se na tua cara. É como tu dizeres que há um bar no Bairro Alto chamado «Loucos e Sonhadores» e ninguém acreditar, chamando-te de doida varrida a seguir. Mas esse tasco existe, de facto, só que está fechado… Como ficamos? Existe ou não? Ideal encerrado para obras. Parece-me bem.

Que se lixem as ideologias, o idealzinho transformador, a causazinha burguesa (que palavra tão anos 60) ou popular, os livrinhos vermelhos, os catecismos, a cartilha liberal! Vou é ao mini-mercado comprar papel higiénico. É esse o meu ideal a curto prazo. Espera aí, Jack, mas são três da matina. Acho que o mini-mercado do bairro está fechado.

O ideal mesmo é não mexer uma palha, deixar tudo como está. O mundo é irreformável, disse ele. «Stay strong, little brother». Portanto, fiquemo-nos, cínicos, pela excitação que é estar relaxadinho, sentadinho, de pernas cruzadas sobre a cadeira, com um cigarro na boca, a olhar para o olhar do modelo que também é actriz que também é informadora esquerdista Anna Karina ou para os movimentos do actor que também é fotógrafo Michel Subor.

Parece que alguém escreveu há quase um século que «a ética é a estética do futuro». E eu fiquei, no cais, a ver navios e o lodo à espera do futuro. Abriguei-me no chapéu-de-chuva, mas foi o sol que senti a bater-me na pele. Isto aconteceu pelas 7 da manhã, quando fui à varanda beber um rum e apreciar a imensidão do estuário do Tejo.

Olha, afinal estou a premir teclas, QWERTY, como numa máquina de escrever, Jack. «A Política dos Autores» em segunda mão em cima da mesa de trabalho, o candeeiro a iluminar os dedos tensos, o red fish Leopoldino às voltas no aquário, a arma na mão de Bruno, o sorriso ambíguo da Veronika Dreyer e alguém – quem? – a armar-se ao pingarelho num quarto num quarto andar no centro de Lisboa. Lou Reed está a cavalgar com uma guitarra eléctrica ao peito. A selva está a arder, Godard.

* Nome de programa de televisão da Antenne 2 (1988-90)