9.2.10
E depois de «CAFÉ & CIGARROS»... [ReMake-Up]
O realizador Jim Jarmusch roda, em Portugal, o filme-documentário «EMPALHADA DE TREMOÇOS, AMENDOINS E AZEITONAS»,
em torno de conversas de cafés e tascas, com actores amadores nos principais papéis.
Os papéis secundários
– de barman, cozinheira, empregada de limpeza e o tipo que vai comprar tabaco à caixa, etc. -
foram atribuídos a actores como Alexandra Lencastre, João Perry, Rogério Samora e Marina Mota.
8.2.10
5.2.10
23.1.10
12.1.10
Olarila
O orgulho é tão grande que cega.
Até cria valor onde não o há.
Tudo para não dar o braço a torcer.
O orgulho se fosse um rapaz, não subiria às árvores por se achar superior a elas. Nem respiraria, pois bastar-se-ia a ele próprio.
Mas o orgulho não é um rapaz. Tem 60 anos e sobrevive com outros e um tubo imaginário na boca ligado a uma imaginária máquina que cria ar…do ar.
Até cria valor onde não o há.
Tudo para não dar o braço a torcer.
O orgulho se fosse um rapaz, não subiria às árvores por se achar superior a elas. Nem respiraria, pois bastar-se-ia a ele próprio.
Mas o orgulho não é um rapaz. Tem 60 anos e sobrevive com outros e um tubo imaginário na boca ligado a uma imaginária máquina que cria ar…do ar.
Ler
Escrever até mais não, até não me apetecer escrever e querer escrever e nao saber escrever e nao escrever
escrever escrever escrever
escrever escrever escrever
21.12.09
la «boleia»
esperou, esperou, esperou,
horas a fio,
na berma da estrada,
por que um dos milhares de carros e carrinhas e motas que passavam por si parasse,
por que uma alma não desconfiada, empática, piedosa ou aventureira lhe desse uma boleia.
estava esfomeado, desidratado,
lábios a ressequir ao sol,
fatigado,
a 45kms do povoado mais próximo,
tinha um travão nas pernas.
era um homem nos seus 61 anos,
talvez 61 e 2 meses.
talvez menos 2 dias e uma tarde.
desprezado o seu polegar por uma série de ambulâncias - em fila a caminho de uma cerimónia qualquer - que dele se abeiravam, tranquilas,
decidiu tombar o corpo franzino para a frente da próxima que com ele se cruzasse.
afinal, alguém teria que o tirar dali, vivo ou morto.
para ele, naquele momento, o estado era irrelevante.
ele só queria uma boleia,
transitar, mover-se,
vivo ou morto.
a carrinha ambulante, sem urgência, trava a fundo,
evitando um atropelamento,
mas o homem morre, à sua frente, de hipohidratação.
horas a fio,
na berma da estrada,
por que um dos milhares de carros e carrinhas e motas que passavam por si parasse,
por que uma alma não desconfiada, empática, piedosa ou aventureira lhe desse uma boleia.
estava esfomeado, desidratado,
lábios a ressequir ao sol,
fatigado,
a 45kms do povoado mais próximo,
tinha um travão nas pernas.
era um homem nos seus 61 anos,
talvez 61 e 2 meses.
talvez menos 2 dias e uma tarde.
desprezado o seu polegar por uma série de ambulâncias - em fila a caminho de uma cerimónia qualquer - que dele se abeiravam, tranquilas,
decidiu tombar o corpo franzino para a frente da próxima que com ele se cruzasse.
afinal, alguém teria que o tirar dali, vivo ou morto.
para ele, naquele momento, o estado era irrelevante.
ele só queria uma boleia,
transitar, mover-se,
vivo ou morto.
a carrinha ambulante, sem urgência, trava a fundo,
evitando um atropelamento,
mas o homem morre, à sua frente, de hipohidratação.
20.12.09
notas de uma viagem de marie delmonde
(no comboio, a caminho de budapeste)
deixa-me
uma nota de quantos dólares quiseres.
sabes bem que não sou puta, nem proxeneta,
e se o sou, não uma qualquer.
nem sequer me interesso pelo vil capital.
digamos que:
gosto de coleccionar,
arquivar notas.
as de despedida,
sobre o rosto de churchill,
de um rei qualquer,
ou sobre o mapa da europa.
são histórias.
é História.
peço-te que ma deixes
sob o soutien,
enquanto durmo,
antes de me deixares.
não te peço que nela espalhes tinta.
deixo-te esta pequena nota:
as tuas impressões digitais bastam-me.
para parecer mais real,
do teu dedo mais sujo.
antes de partires para o outro vagão.
tenho um cigarro, a arder, entre os dedos dos pés.
dormito, no exponencial + infinito do potencial.
mas não tenho memória, nem papel para apontar tamanha torrente.
e há uma criatura que mo impede.
me pede: «não o faças».
«lúcida, não suportarias tal baque», remata.
travo-me.
o meu umbigo é:
um buraco entre a fantasia e o verbo.
nunca haverá sobre ele ponte por onde se passe,
sem se cair ao mar, daquele que engole.
nunca haverá ponta por onde se pegue.
ponto.
só uma ponta do cigarro na ponta dos meus dedos,
a arder.
a arder.
deixa-me
uma nota de quantos dólares quiseres.
sabes bem que não sou puta, nem proxeneta,
e se o sou, não uma qualquer.
nem sequer me interesso pelo vil capital.
digamos que:
gosto de coleccionar,
arquivar notas.
as de despedida,
sobre o rosto de churchill,
de um rei qualquer,
ou sobre o mapa da europa.
são histórias.
é História.
peço-te que ma deixes
sob o soutien,
enquanto durmo,
antes de me deixares.
não te peço que nela espalhes tinta.
deixo-te esta pequena nota:
as tuas impressões digitais bastam-me.
para parecer mais real,
do teu dedo mais sujo.
antes de partires para o outro vagão.
tenho um cigarro, a arder, entre os dedos dos pés.
dormito, no exponencial + infinito do potencial.
mas não tenho memória, nem papel para apontar tamanha torrente.
e há uma criatura que mo impede.
me pede: «não o faças».
«lúcida, não suportarias tal baque», remata.
travo-me.
o meu umbigo é:
um buraco entre a fantasia e o verbo.
nunca haverá sobre ele ponte por onde se passe,
sem se cair ao mar, daquele que engole.
nunca haverá ponta por onde se pegue.
ponto.
só uma ponta do cigarro na ponta dos meus dedos,
a arder.
a arder.
7.12.09
Proib!
Sentido!
Sentido,
Sinal
Banal
Vertical
Proibido.
(Vamos lá, então, às palavras de ordem!)
É proibido proibir!
Proibido proibir proibições!
É proibido privações!
Proibido proibir privações!
(Agora, um pouco de Bíblia no divã)
O fruto proibido está podre, à porta da tua boca.
Não é proibido comê-lo.
Pelo contrário, proibido é não comê-lo!
(Agora, venham lá as lições de moral sadias!)
Proíbe-me tudo, menos o masoquismo!
Menos o masoquismo, ouviste?
Rasga-me o pescoço!
Proibo-te apenas de não me rasgares o pescoço!
Só essa proibição liberta.
Se és masoquista, compreenderás.
(Por fim, lirismo amador e uma questão legal)
Sentido proibido,
Caído no chão.
Proibido calcar!
Proibido contornar!
Proibido sobrevoar!
E mais: não sabem vocês que é proibido roubar sinais proibidos?
Porquê?
Proibido pensar!
Sentido,
Sinal
Banal
Vertical
Proibido.
(Vamos lá, então, às palavras de ordem!)
É proibido proibir!
Proibido proibir proibições!
É proibido privações!
Proibido proibir privações!
(Agora, um pouco de Bíblia no divã)
O fruto proibido está podre, à porta da tua boca.
Não é proibido comê-lo.
Pelo contrário, proibido é não comê-lo!
(Agora, venham lá as lições de moral sadias!)
Proíbe-me tudo, menos o masoquismo!
Menos o masoquismo, ouviste?
Rasga-me o pescoço!
Proibo-te apenas de não me rasgares o pescoço!
Só essa proibição liberta.
Se és masoquista, compreenderás.
(Por fim, lirismo amador e uma questão legal)
Sentido proibido,
Caído no chão.
Proibido calcar!
Proibido contornar!
Proibido sobrevoar!
E mais: não sabem vocês que é proibido roubar sinais proibidos?
Porquê?
Proibido pensar!
26.11.09
22.11.09
Caobsurdo
Ouvi contar que há uns homens que criam cães chamados galgos. Que treinam os cães para correrem mais que os cães de outros homens que também criam essa raça de cães.
E que, depois de bem treinados, se juntam todos, homens e cães numa espécie de evento social, uma grande festa, e mandam os cães correr a ver qual o cão que chega primeiro.
Que era muito importante para estes homens que o seu cão chegasse em primeiro lugar. Chamavam a isto desporto. O dono do cão que chegava primeiro ficava muito ufano, recebia parabéns, apertos de mão, abraços, palmadinhas nas costas. Recebia também um prémio.
Parece que chegar primeiro seria considerado sinal de virilidade. Não do cão mas do dono.
Para me provarem que era verdade mostraram-me uma fotografia de uma dona de cão galgo que tinha ganho uma corrida e a dona era bem servida de pilosidades no rosto.
Ouvi contar também que o prémio do cão era ser abatido ao fim de uns três anos, quando já não tinha nenhuma hipótese de correr de modo a que o dono ganhasse a corrida.
Ouvi contar. Mas deve ser mentira.
Outros me contaram que faz parte da natureza do homem a bondade e a compaixão.
Portanto, não inventem.
E que, depois de bem treinados, se juntam todos, homens e cães numa espécie de evento social, uma grande festa, e mandam os cães correr a ver qual o cão que chega primeiro.
Que era muito importante para estes homens que o seu cão chegasse em primeiro lugar. Chamavam a isto desporto. O dono do cão que chegava primeiro ficava muito ufano, recebia parabéns, apertos de mão, abraços, palmadinhas nas costas. Recebia também um prémio.
Parece que chegar primeiro seria considerado sinal de virilidade. Não do cão mas do dono.
Para me provarem que era verdade mostraram-me uma fotografia de uma dona de cão galgo que tinha ganho uma corrida e a dona era bem servida de pilosidades no rosto.
Ouvi contar também que o prémio do cão era ser abatido ao fim de uns três anos, quando já não tinha nenhuma hipótese de correr de modo a que o dono ganhasse a corrida.
Ouvi contar. Mas deve ser mentira.
Outros me contaram que faz parte da natureza do homem a bondade e a compaixão.
Portanto, não inventem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)