24.9.09

A-bee-lha

Quanto mais te mexes, mais te afundas – dizia-me ele.
Mas estou quietinha – argumentava eu.
Não compreendia o porquê dele me dizer aquilo quando me sentia inerte.
Ele avisou «virá a picada da abelha e saltarás de dor. Ou de susto.»

22.9.09

Breathe in. Breathe out.

Cortaste-me.
Obrigada.
Só depois do corte, me apercebi que ainda estava viva.
Se não me tivesses cortado, não respirava como se quase me afogasse. E aí morria sem ar.
Morria se tu não me cortasses. Morro quando me cortas.
Dói. Dói a lâmina e não a ferida que abriu.
Obrigada.
Cortaste-me.

13.9.09

(ab)Surda é a noite

Éramos quatro
Absurdavamos juntos
Fiquei eu,
a tartaruga
um ovo de codorniz.

10.9.09

a casa

Era uma casa pintada de cor-de-rosa onde vivia uma família de mãe e filhos.
Havia um muro da altura da criança do meio e para lá do muro um jardim com muitas flores que mudavam conforme a estação.
Havia o pátio na frente da casa onde os irmãos da criança do meio brincavam.
E o pátio de trás com uma parede caiada de branco com uma risca escura muito grossa na parte de baixo.
A criança do meio gostava de, com as unhas, esfolar a parede branca e comer-lhe a cal em dias de muito sol.
A casa foi vendida e, onde antes era o jardim, está agora um grande cubo que é uma oficina onde arranjam carros.
As crianças cresceram, cada uma está numa terra diferente. Um morreu, a mãe morreu. Mas,em noites de muito breu, a criança do meio visita a casa.
No pátio da frente vê os irmãos. Brincam como costumavam.
O jardim ainda lá está e ela vê-se a dormir à sombra das dálias do jardim.