28.8.08

Concurso de Ideias (Sem rei nem roque, sem vencedor nem prémio)

Wanted:
Textos para interpretar/ilustrar/acompanhar/comentar esta imagem.
Ou devaneios em torno desta peça exposta no Museu de Arte Contemporânea de Bolzane, a norte da Itália.

(O depositário de comentários está aberto 24 horas/ dia)


Na Minha Rua

Na minha rua há um jovem lojista
que prefere rimar a ripar.
Tem a loja cheia de dísticos irregulares
em que avisa que não está ali para fiar:
«Quem quer fiado vá ao lado»,
«Fiado: só aos 90 anos, pelos pais acompanhado».

Na minha rua havia um jovem seminarista
que trabalhou na remodelação da minha casa.
Um dia, debateu o voto de castidade comigo,
reproduzindo os abortos das mentes estéreis dos superiores
e talvez batendo uma pívia gratuita em minha honra, na retrete.

Ontem, surripiei um frasco de mel ao sovina do meu marido
e enviei-lho pela mãe, em nome do seu desassombro juvenil.

Na minha rua há um jovem carrancudo e desconfiado
que caiu na asneira de receber em casa dois bêbados.
A dada altura, a conversa descambou e um dos bêbados,
com um jeito especial para abrir a goela aos suínos
e por isso convidado habitual aquando da matança do porco,
recebeu do dono da casa um facalhão irónico no peito.
Quando o entregou o instrumento do crime ao polícia de serviço,
o jovem carrancudo teve o cuidado de avisar:
- Fica com ela, na condição de ma devolver depois.

Na minha rua, à esquina do Universo.

(Colaboração de PC)

26.8.08

V., F. ou o Terceiro Incluído

Vee mente veementemente.
Eu finjo veementemente acreditar que ela não mente.
Vee acreditará veementemente que eu estou a acreditar veementemente nela?
Ou saberá que estou a recorrer à dissimulação veemente?
E se Vee afinal não mente?
Ou mente e não mente, sincronizadamente?

24.8.08

E por parlar em Dadá...

"Para fazer uma poesia dadaísta:
Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo que tenha o comprimento que deseja dar à sua poesia.
Recorte o artigo.
Corte de novo, com cuidado, cada palavra que forma este artigo e coloque todas as palavras num saco.
Agite delicadamente.
Tire uma palavra depois da outra, colocando-as na ordem em que as tirou.
Copie-as conscienciosamente.
A poesia parecer-se-á consigo.
Ei-lo transformado num escritor infinitamente original e dotado de graciosa sensibilidade.
Ainda que incompreendido"


(Manifesto Dadá de 1918, por Tristan Tzara)



Batatada-Dadá

Cheirava a esturro.
Sim, era suposto serem apenas batatas a murro,
Mas tornaram-se batatas a esturro.

À custa de um chamuscado infortúnio,
Chef e anónimo cozinheiro, casmurros,
Andaram ao murro.
Encostos ao muro,
Berros perros,
Socos, poucos,
Fogo de artifício, aquele eterno vício.

Pelo menos para as peles,
A falta de engenho nos punhos pode ser uma benesse.
E todo este alvoroço por causa de umas pequenas batatas com pele.
Num próximo almoço, peço umas batatas skinless.
E enquanto esperamos, podemos ver «A Letra L».
Ou em alternativa, podemos ouvir dos Ornatos a «Letra S».
Esperamos nós que sem mess.

22.8.08

Redondo Square Garden

Redondo square garden
numa fenda atlântica
de uma casa-papagaio
à deriva
num oceano métrico de chapéus de côco
&
Um navio atracado numa gaivota
que deu à luz
dois ovos negros
de onde saíram dois abades
de figura tibuteante
que se penduraram
num coqueiro morto
& ainda
Duas balas disparadas de um revólver
sem o consentimento do pai-menor,
que as tinha polido para o museu
redondo dos chapéus de côco.

(Colaboração de Ed Ude)

21.8.08

Sonhos

Ontem, lá pelas 7 da tardina, comi um sonho.
Um sonho de sonho.

À noite (?),
Durante a madrugada (?),
Lá pelas 2,3,4,5h (?),
Durante o sono,
Tive pesadelos.
Atrás uns dos outros.
De trás para a frente.
De frente para trás.
Era devorado por uma sedenta multidão de sonhos.
A rirem-se, maldosamente, na minha cara.
Antes de ficar sem ela.

Receita de Quiche de Coca-Cola e Agoiro

A - O que é?
B - Uma coca, por favor!
A - O quê?
B - Uma coca-cola!
A- Ah! Fala baixo e quer que oiçam…

(…)

A - 1 Euro.

(…)

B - Ah, não tenho, perdão, não era nada então.



Bem, aqui diz assim:

- Bem essencial: ovos e coca-cola (dose inteligível)

- Sugestões de ingredientes adicionais:
- carbonato ou fosfato de cálcio (ou só alguns osteócitos fragilizados)
- queijo fresco panado (com ou sem brucelose, de preferência, picante)
- qualquer peixe de alto mar (com ou sem mercúrio)
- alface (com ou sem chumbo)
- qualquer carne vermelha (com ou sem purinas, nitrosaminas ou minas, sem sal)
- sangue idealizado
- qualquer fungo (não venenoso e não fungóide!)
- outros agoiros à escolha

Quis uma quiche de coca-cola e não tinha dinheiro, nem galinhas! Desisto do quis e da quiche. Quero. Quero comer comida saudável.


(Colaboração de Tilsprin, um peixe-que-ousou-dar-um-fora-da-água-e-quis-ajudar-peixes-dissidentes-das-águas-a-escreverem-um-absurdário-sem-fim)

13.8.08

Grams

A gramática das palavras de "A" a "Z" (portuguesa) não quis comer o alfabeto Russo nem beber o alfabeto Chinês ao pequeno-almoço. Ainda assim declarou-se multicultural ao bater das 12h. Para festejar, disparou da espingarda um cravo que se entalou na garganta da gramática de Miranda, que acabou por morrer no dicionário a caminho da biblioteca, porque a estante estava distante. A gramática foi a julgamento e foi dada como culpada, de "A" a "Y". A gramática sofre agora de um stress pós-calão que se rebela, colocando todas as letras em itálico sem aviso prévio.

(Texto de Ed Ude)

12.8.08

Jornal «O Cream» (Linha Editorial)

Apresento-me desde já: sou o Carl-Jack Furtado, caucasiano-português puro, tenho 47 anos, dois braços ainda, mesmo depois de assaltado 8 vezes por uns bacanos de sotaque nada camoniano. Tenho ainda 2 filhos (já doutorados), 7 carrões, uma mulher, uma amante maliana, um casaco de cabedal, frieiras no Inverno e sou editor do recém-nascido jornal O Cream.

O Cream é um novo periódico especializadíssimo em crimes, cremes e «screams», que estará no mercado a partir de hoje, quando perfazem alguns anos e alguns dias sobre as mortes de Gandhi e de Astor Camorini.

Numa altura em que os cremes, os crimes e os «screams» estão a ser impulsionados pela crise nos sectores alimentar, petrolífero e cerebral, eu e alguns colegas jornalistas achámos pertinente - de interesse público, aliás - criar um jornal que espelhasse a realidade nua e crua que assola o nosso país, sem rodriguinhos - dar a ver e ver que o mundo está mal e perigoso relativiza os nossos egocêntricos queixumes. No entanto, admitimos já que nós queremos acabar com o mal do mundo e com os vossos queixumes e, paulatinamente, massajar-vos mais com cremes do que com crimes. A nossa utopia é chegar, progressivamente, a uma totalidade de 100 notícias sobre cremes e de zero sobre crimes.

Há quem chame a esta luta e a esta visão, muito dignas, de sensacionalismo. Nós - isto é, eu e a minha trupe de assalariados - chamamos a esta causa de verdade, reportagem, vanguarda, sinceridade, qualidade, de Vida, contra qualquer brigada Anti-Vida que anda por aí à espreita.

A verdade tem que ser dissecada e é esse o nosso propósito como investigadores criminais cooperantes, justiceiros, amigos da ordem pública, honestos operários ao serviço do bem comum.

Trabalhamos em prol do serviço público e da denúncia, de modo a erradicarmos o crime no nosso país. Alinhamo-nos, assim, rigorosamente, por uma excelsa organização, acreditando que superaremos, no sentido contrário (o do Bem), em matéria da precisão, qualquer grupo de crime organizado.

Deste modo, concluo este editorial apresentando-vos, nua e cruamente, como é nosso apanágio, a organização/disposição «paginal» do jornal. Aqui vai: constará, para já, deste diário uma secção sobre cremes, que patrocinam o jornal, na página final. Anexada a essa página virão mais 20 páginas destinadas a crimes - por nacionalidade, sendo que os crimes praticados por portugueses terão direito apenas a uma página e os crimes praticados por imigrantes - legais e ilegais - em Portugal a 19 páginas, porque esta «galera» é malandreca e tem prazer em fazer correr muito sangue e muita tinta. Advertimos, e pedimos antecipadamente desculpa, para a eventualidade de não haver assunto para a página reservada a crimes por mãos de portugueses-caucasianos, porque eles (os crimes, entenda-se) são raríssimos entre a espécie, aliás em extinção.

Quanto aos «screams», dispensamos para os nossos caros leitores - que vaticinamos que nos vão amar, porque nós também já os estimamos muito - cinco páginas para «estórias» reais, contadas na primeira pessoa, de «sustos e gritos» que apanharam. Puxem pela imaginação ou pela memória. É indiferente a origem. Seleccionaremos os relatos mais in extremis, bizarros, chocantes ou os mais medonhos.

Ah, ia-me esquecendo: todos os dias terão o prazer aprazível de me ler num editorial modesto na página nº 2 deste jornal. Amanhã talvez vos fale sobre a origem do ditado «O crime não compensa». Não assaltem, não matem, não sequestrem, não roubem (nem sequer um «ice cream»), por favor! (Pensando bem, não sei se recomendar esta espécie de coisas é comercialmente correcto... Oops)

Um abraço,

Furtado-aquele-editor-sempre-ao-dispor.

9.8.08

Olimpismos

Uma judoca olímpica portuguesa desabafa, a meia-voz, com um colega, também atleta olímpico, num restaurante, em Pequim, onde não lhe servem cão, só para não ferirem a sua susceptibilidade ocidental:

- Preciso de uma paciência olímpica para conviver com alguns portugueses que disfarçam, de 4 em 4 anos, deleitarem-se com modalidades olímpicas que não lhes interessam habitualmente, além do futebol.

(...)

- E quando alguns dizem, orgulhosos, «o nosso Nélson Évora», «a nossa Naide Gomes», «o nosso Obikwelu», como os possuíssem (a eles objectos-prodígio a quem raramente ligam), e, logo a seguir, vociferam, noutra conversa, o mais genuíno comentário racista - algo como «Estes pretos, sei bem para onde os mandava!»?


Ele, o atleta olímpico, responde, após uma garfada num rato bem saboroso:

- Esquece lá isso, rapariga. Se tu venceres, eles gostarão de ti.

Peep Show

Duas moedas.
Dois euros.
Dois humanos.
Dois seres sexuados.
Três tarefas.
Em dois minutos.
Uma plataforma circular, a girar.
Uma cama.
Um vidro, a separar.

Mentira.
Rewind:
Dois não é o número.
Três é a conta que ali se fez.
1 casal + 1 curioso.
É essa a matemática.
Gélida.
Escaldante.
Quente-e-fria.

Dois euros.
Duas máquinas de carne-e-osso.
Um vidro.
Dois quase-quase-sexuados.
Dois quase-quase-assexuados.
Uma quase-quase-mulher
(A lançar libidosamente a lascívia pela ponta da língua).
Um quase-quase-homem
(Concentrado no rigor e no vigor).
Encaixados.
Como legos.
Dois minutos,
Três acções.
Três técnicas.
Carnalo-mecânicas.
Carnalo-profissionais.

(Quantas cabines ocupadas, ao lado?
Quantas erecções?
Solidões?
Quantas?)

Ao fim do clássico de 2 minutos,
O casal evapora-se, entre o vapor.
Lê-se em letras garrafais,
No vidro garrafal:
«Dank U.
Foste o melhor do peep show.
Tu foste O Peep Show!»


O curioso sai da cabine a sorrir.
De mãos nos bolsos.