Apresento-me desde já: sou o Carl-Jack Furtado, caucasiano-português puro, tenho 47 anos, dois braços ainda, mesmo depois de assaltado 8 vezes por uns bacanos de sotaque nada
camoniano. Tenho ainda 2 filhos (já doutorados), 7 carrões, uma mulher, uma amante maliana, um casaco de cabedal, frieiras no Inverno e sou editor do recém-nascido jornal
O Cream.
O Cream é um novo periódico especializadíssimo em crimes, cremes e «screams», que estará no mercado a partir de hoje, quando perfazem alguns anos e alguns dias sobre as mortes de Gandhi e de Astor Camorini.
Numa altura em que os cremes, os crimes e os «screams» estão a ser impulsionados pela crise nos sectores alimentar, petrolífero e cerebral, eu e alguns colegas jornalistas achámos pertinente - de interesse público, aliás - criar um jornal que espelhasse a realidade nua e crua que assola o nosso país, sem rodriguinhos - dar a ver e ver que o mundo está mal e perigoso relativiza os nossos egocêntricos queixumes. No entanto, admitimos já que nós queremos acabar com o mal do mundo e com os vossos queixumes e, paulatinamente, massajar-vos mais com cremes do que com crimes. A nossa utopia é chegar, progressivamente, a uma totalidade de 100 notícias sobre cremes e de zero sobre crimes.
Há quem chame a esta luta e a esta visão, muito dignas, de sensacionalismo. Nós - isto é, eu e a minha trupe de assalariados - chamamos a esta causa de verdade, reportagem, vanguarda, sinceridade, qualidade, de Vida, contra qualquer brigada Anti-Vida que anda por aí à espreita.
A verdade tem que ser dissecada e é esse o nosso propósito como investigadores criminais cooperantes, justiceiros, amigos da ordem pública, honestos operários ao serviço do bem comum.
Trabalhamos em prol do serviço público e da denúncia, de modo a erradicarmos o crime no nosso país. Alinhamo-nos, assim, rigorosamente, por uma excelsa organização, acreditando que superaremos, no sentido contrário (o do Bem), em matéria da precisão, qualquer grupo de crime organizado.
Deste modo, concluo este editorial apresentando-vos, nua e cruamente, como é nosso apanágio, a organização/disposição «paginal» do jornal. Aqui vai: constará, para já, deste diário uma secção sobre cremes, que patrocinam o jornal, na página final. Anexada a essa página virão mais 20 páginas destinadas a crimes - por nacionalidade, sendo que os crimes praticados por portugueses terão direito apenas a uma página e os crimes praticados por imigrantes - legais e ilegais - em Portugal a 19 páginas, porque esta «galera» é malandreca e tem prazer em fazer correr muito sangue e muita tinta. Advertimos, e pedimos antecipadamente desculpa, para a eventualidade de não haver assunto para a página reservada a crimes por mãos de portugueses-caucasianos, porque eles (os crimes, entenda-se) são raríssimos entre a espécie, aliás em extinção.
Quanto aos «screams», dispensamos para os nossos caros leitores - que vaticinamos que nos vão amar, porque nós também já os estimamos muito - cinco páginas para «estórias» reais, contadas na primeira pessoa, de «sustos e gritos» que apanharam. Puxem pela imaginação ou pela memória. É indiferente a origem. Seleccionaremos os relatos mais
in extremis, bizarros, chocantes ou os mais medonhos.
Ah, ia-me esquecendo: todos os dias terão o prazer aprazível de me ler num editorial modesto na página nº 2 deste jornal. Amanhã talvez vos fale sobre a origem do ditado «O crime não compensa». Não assaltem, não matem, não sequestrem, não roubem (nem sequer um «ice cream»), por favor! (Pensando bem, não sei se recomendar esta espécie de coisas é comercialmente correcto... Oops)
Um abraço,
Furtado-aquele-editor-sempre-ao-dispor.