31.3.10
Folclore
Atei o sapato
no mercado do Quebra Costas.
Parti para a guerra
Deixei a terra
num balde de Mim.
Fugi para bem alto
Foi só de um salto
Quando te Vi.
29.3.10
nódoa que dói dói no tecido da toalha rendada de mesa.
dor de garganta.
que doa!
nó na garganta.
garganta espetada por um garfo espetando uma deliciosa espetada.
depois de meter o garfo à boca, uma gargalhada esgalhada,
daquelas em que quase morremos de tanto rir.
depois sentimos que a garganta está ferida.
e, oops, já não tem graça.
graçola de graça,
não, garçon.
não é de graça.
graceja,
enquanto o esparguete boceja,
e seca no prato.
ninguém se lembra mais dele.
nódoa no tecido.
nódoa no corpo.
nó.
novas.
novelos.
novelas.
o jantar à luz das velas apagou-se.
27.3.10
Untitled #727
Há um jarro de lírios à minha frente.
Uma tela branca atrás.
Ando para a pintar há meses.
Ninguém quer saber dela senão eu e mesmo eu tenho-lhe falhado ou, daí, não.
Não sei se ela quer que a pinte ou que simplesmente a deixe rasa, sem vícios, sem cores ou expressões.
Ontem chamou-me no meu mais tranquilo sono.
Pediu-me licença para existir.
Mas foi no sono e fora do meu sono não sei o que ela deseja.
No meu sono tudo é possível, fora dele tenho uma corda.
Sei que ela tem desejos e que gosta da minha companhia, quando não estou sóbrio.
Há uma criança a meu lado.
Furando a parede, a mil quilómetros, a criança está lá.
De olhar taciturno, está sentada numa cadeira de madeira roída pelo caruncho.
Uma cadeira com uma memória intacta.
Uma cadeira com um corpo esburacado.
A criança não sabe quem é.
Encontra-se ali desde a sua nascença.
Tem a cara suja em sangue.
De quem, não sabe.
Tem as mãos amarradas e sussurra palavras vãs.
Sabe dizer «ptzg» e «gsgag».
De resto, não lhe interessam nomes nem seres humanos.
Por vezes, convive com um rato que corre à sua frente, todos os dias, entre as 9 e as 10 da noite.
O rato não tem pele.
Nunca comeu, diz-me o sofá que o alberga à noite.
Sobrevive à custa do exercício de hora que executa em frente à criança.
Por vezes, lambe-lhe as pernas.
Outras vezes chega-lhe aos seios em busca de leite, mas nunca o sugou.