Coelhos.
Ele há coelhos que gostam de coentros.
Ele há coentros em centros de flores.
Ele há centros de dia, sem flores, e onde não se vê a luz do dia.
Luz.
Hoje à noite, «truz-truz».
Abro a porta.
À porta da porta, uma sereia à la Magritte,
Pernas de mulher, cabeça de peixe.
Atira-me água para a cara, do seu rico bico.
Sugiro-lhe que «entre».
Entre nós, um odor a peixe.
Deixamos entrar um feixe.
De luz.
Odor.
Há um odor a peixe a rodos.
«Odor, sim, fedor, não».
Quem fede é odiado - é a regra que vinga.
Ódio.
O ódio no pódio.
Vence naquele concurso sem recurso,
Em curso no fim daquele curso.
O curso dos inadaptados.
É mais ou menos isto que eles dizem:
«Se não estás apto, és um mentecapto».
És.
Pois é, Barnabé.
Ou tens pé ou não tens pé.
«Pensamento binário, percebes?»
Ou «um» ou «zero». É o que te pedem.
Ou «carne» ou «peixe». «Ou és um, ou és outro!»
«Nada de sereias! Isso são odisseias».
0 1
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Se és «um», és um esmero.
Se és um «zero», és aceitável.
Se não és nenhum, és um zero ou... execrável.
E isso, sobe de tom o coro, em uníssono: «NÃO TOLERO!».
Coro.
O coro está corado.
Falta-lhe a coragem.
Falta a aragem.
Volta a trás na portagem.
Não arrisca a ala obscura da viagem.
O coro.
Não tem couro para se desmembrar.
Ficar sem um membro é chato.
Um corpo com um chato?
Um corpo sem um dedo?
Um corpo é medo?
E isso é chato.
E isso é muito chato.
«Habeas corpus».
«E, coitado!, que Deus te perdoe.».
«E que nada te doe».
Perdão, «nada te doa».
Doer, doar.
Às portas da morte, não doo o coração.
Doo a razão.
Que teimosa é ela, como uma porta.
«E a porta é teimosa, porquê?».
Pergunto antes de bater as portas.
Razão.
Ela vale um bilião.
De euros? - Perguntam.
«Não, de dólares».
Ou será de «dolores»?
Dolores.
Dores.
Maria das Dolores.
Era o nome da sereia.
Acabámos num prato, farto, fartos,
Juntos a uma lampreia.
A falar à boca cheia.
Nos States - ouvimos na rádio - há uma cheia.
E corre seiva escura na minha veia.
Nas minhas veias.
25.7.08
Feedback
Após um painel aceso sobre a escalada de preços dos alimentos,
dois antagonistas num debate-combate, pedem ambos, no refeitório de uma estação televisiva, o seu prato predilecto - o mesmo, por acaso.
E conversam, entusiasticamente, sobre preferências musicais.
Ambos - afirmam efusivos - matariam alguém naquele momento para ouvir os Dead Kennedys.
Não pagam a refeição.
dois antagonistas num debate-combate, pedem ambos, no refeitório de uma estação televisiva, o seu prato predilecto - o mesmo, por acaso.
E conversam, entusiasticamente, sobre preferências musicais.
Ambos - afirmam efusivos - matariam alguém naquele momento para ouvir os Dead Kennedys.
Não pagam a refeição.
Dois Dísticos Aforísticos
A bela e o monstro.
Não há bela sem senão.
Não digam mal do país que temos.
Sem ele, não teríamos onde pôr os pés descalços.
(Colaboração de PC)
Não há bela sem senão.
Não digam mal do país que temos.
Sem ele, não teríamos onde pôr os pés descalços.
(Colaboração de PC)
22.7.08
Unguealvans (Pt. 1)
Após um póstumo “vamos nessa Vanessa”
(cliché past-tense de spot publicitário),
De Vans calçadas,
Um singer-song-writer
Unguentou os delicados & esguios dedos.
Trancou-se no cofre,
trancado no acampamento de ciganos,
que, por sua vez, estavam trancados dentro da tenda,
mas,
não era uma qualquer tenda,
era a tenda-do-grande-chefe.
O cofre,
Que, volatilmente, voou para outras paragens,
Não menos cardíacas,
E com uma quase-Ilíada-sorte,
A aorta não se obliterou na alunagem.
E o singer-song-writer
Deslizou sobre as quatro rodas cerebrais
E, junto ao fogo,
Dedilhou,
Com os seus unguealvans dedos,
Em escala harmónica,
Um amor-dedicado-delicado
(que fez lembrar o azul da terra que o iluminava).
(Texto do Ed Ude, que emancipou-se e perdeu o medo de se assumir como co-autor num blog rasco)
(cliché past-tense de spot publicitário),
De Vans calçadas,
Um singer-song-writer
Unguentou os delicados & esguios dedos.
Trancou-se no cofre,
trancado no acampamento de ciganos,
que, por sua vez, estavam trancados dentro da tenda,
mas,
não era uma qualquer tenda,
era a tenda-do-grande-chefe.
O cofre,
Que, volatilmente, voou para outras paragens,
Não menos cardíacas,
E com uma quase-Ilíada-sorte,
A aorta não se obliterou na alunagem.
E o singer-song-writer
Deslizou sobre as quatro rodas cerebrais
E, junto ao fogo,
Dedilhou,
Com os seus unguealvans dedos,
Em escala harmónica,
Um amor-dedicado-delicado
(que fez lembrar o azul da terra que o iluminava).
(Texto do Ed Ude, que emancipou-se e perdeu o medo de se assumir como co-autor num blog rasco)
21.7.08
Nihil Does Not Feel
Não há nada de fresco em comer peixe fresco.
Nada de refrescante em trincar um cubo de gelo.
Não há qualquer humor na criação, nem na reprodução do humor.
Nem sequer tempestades nem cérebros nas «brainstormings».
Não há nada de estimulante em escrever «não há nada de».
Nada de relevante na relevância.
Não há qualquer Ás que transforme um baralho de cartas num Ás.
Nem nada de ocioso no ócio.
Nada de bom no bom senso.
Não há nada benéfico no bem,
Nada maligno no mal.
Nada de lascivo na lascívia.
Nada de puro na pureza.
Nenhum rasgo original na originalidade.
Muito menos um ínfimo pingo num pingo de chuva.
Nada há de credível numa crença,
Nada de absurdo no absurdo.
Nenhum trejeito radical na radicalidade.
Nada de belo na beleza.
Porque nada há.
Ou,
Há a haver algo,
Meras, muitas, várias quimeras.
Quase, quase verossímeis,
Quase, quase verossímeis,
Mas apenas muitas meras várias quimeras.
Muitas meras várias quimeras.
Muitas meras várias quimeras.
Nada de refrescante em trincar um cubo de gelo.
Não há qualquer humor na criação, nem na reprodução do humor.
Nem sequer tempestades nem cérebros nas «brainstormings».
Não há nada de estimulante em escrever «não há nada de».
Nada de relevante na relevância.
Não há qualquer Ás que transforme um baralho de cartas num Ás.
Nem nada de ocioso no ócio.
Nada de bom no bom senso.
Não há nada benéfico no bem,
Nada maligno no mal.
Nada de lascivo na lascívia.
Nada de puro na pureza.
Nenhum rasgo original na originalidade.
Muito menos um ínfimo pingo num pingo de chuva.
Nada há de credível numa crença,
Nada de absurdo no absurdo.
Nenhum trejeito radical na radicalidade.
Nada de belo na beleza.
Porque nada há.
Ou,
Há a haver algo,
Meras, muitas, várias quimeras.
Quase, quase verossímeis,
Quase, quase verossímeis,
Mas apenas muitas meras várias quimeras.
Muitas meras várias quimeras.
Muitas meras várias quimeras.
16.7.08
Revólver às 5
Cinco sacos abertos
Cinco mini-bares
Num hotel de quatro estrelas.
Cinco seres étrange
E um estrangeiro em casa.
Compraram um revólver.
Uma moça de tornozelo tatuado passa…
E
A lua sorri um sorriso desfalcado
E um bafo malfadado cai em usura,
E em penúria.
Ligam os cabos e tudo se desfaz em pó.
Ascético e agoniante de uma comédia louca.
(Palavras emprestadas por um tal Ed Ude, o meu «ghost writer» - pelo menos por hoje - das quais não depreendo nada, senão loucura de fantasma)
Cinco mini-bares
Num hotel de quatro estrelas.
Cinco seres étrange
E um estrangeiro em casa.
Compraram um revólver.
Uma moça de tornozelo tatuado passa…
E
A lua sorri um sorriso desfalcado
E um bafo malfadado cai em usura,
E em penúria.
Ligam os cabos e tudo se desfaz em pó.
Ascético e agoniante de uma comédia louca.
(Palavras emprestadas por um tal Ed Ude, o meu «ghost writer» - pelo menos por hoje - das quais não depreendo nada, senão loucura de fantasma)
15.7.08
Duelos: Lou vs Leo
A - (...) E que tal desenterrarmos o duo Leandro & Leonardo para oferecer de prenda, tipo concerto privativo, à Moto-Serra Leoa?
B - O que é ou quem é? Uma mulher? E um desses bacanos já não morreu?
A - Daí o «desenterrar»... A Moto-Serra é aquela miúda, a «cheese-leader» (sic) dos Leões com os melões mais avantajados. A gaja disse-me que gostava de música romântica e de música brasileira. Há que jogar pelo seguro e pelo romântico.
B - Pá, neste momento, estou focado noutros jogos. Por exemplo, em ver no que vai dar o duelo Lou Reed vs Leonard Cohen, esta sexta-feira, à mesma hora, em dois pousos diferentes de Lisboa. Poderá ser mais excitante do que qualquer clássico Benfica/Porto.
A - Isso é muito fora de moda. Curto mais Capri Son, o novo projecto do outro Leo, o de Capri. .. Mas olha que é capaz de haver muita gente a querer ter o dom da obliquidade nessa noite...
B - Não quererás dizer ubiquidade?
A - Ou isso. Tu sabes bem, tipo Deus.
B - Acho mais interessante o politeísmo. Dois deuses a actuar na mesma cidade, um no Passeio Marítimo, outro no Campo Pequeno. Não é todas as noites.
A - Deve ter a sua piada ver dois deuses na sua fase «fall», um a cair ao Tejo e o outro a ser atacado e derrubado por um touro em plena arena.
B - Bem visto, mas eu gosto é da música deles, rapaz. E ainda não sei realmente como vou fazer. Talvez sequestre os dois e os mantenha reféns num banquete, a cantarem para os privilegiados presentes, em simultâneo, o «Venus In Furs» e o «Hallelujah». A compleição: carne e espírito em harmonia, a cruzarem-se.
A - Isso não daria alta cacofonia?
B - Estragaste-me a imagem. Não tens o dom da ubiquidade, mas tens o poder do realismo contigo.
A - Ouve, e que tal ires a outro concerto, para não estares num a pensar o quanto darias para estar no outro.
B - Mmm... Olha... Tricky, em Gaia. Talvez seja uma boa ideia.
A - É manhoso, mas tu é que sabes.
B - Quem? O quê? Gaia ou o Tricky?
A - Sei lá o que é isso. É o bacano que canta «Tricky Tricky, dá-lhe!»?
B- Cheira-me que não. Isso de que falas é mais erudito e cheira melhor.
A - Cuidado! Gaia é só gunas.
B - Mas eu vou é para as dunas. O concerto é na praia.
A - E quem te garante que não há gunas nas dunas?
B - E se houver? (...) «Hell is around the corner»...
A - «Que medo!». «Eu sou tão mau»... Pensando bem, as dunas têm esquinas?
B - Não. Têm outras coisas... alcatrão sujo, entre outras coisas...
B - O que é ou quem é? Uma mulher? E um desses bacanos já não morreu?
A - Daí o «desenterrar»... A Moto-Serra é aquela miúda, a «cheese-leader» (sic) dos Leões com os melões mais avantajados. A gaja disse-me que gostava de música romântica e de música brasileira. Há que jogar pelo seguro e pelo romântico.
B - Pá, neste momento, estou focado noutros jogos. Por exemplo, em ver no que vai dar o duelo Lou Reed vs Leonard Cohen, esta sexta-feira, à mesma hora, em dois pousos diferentes de Lisboa. Poderá ser mais excitante do que qualquer clássico Benfica/Porto.
A - Isso é muito fora de moda. Curto mais Capri Son, o novo projecto do outro Leo, o de Capri. .. Mas olha que é capaz de haver muita gente a querer ter o dom da obliquidade nessa noite...
B - Não quererás dizer ubiquidade?
A - Ou isso. Tu sabes bem, tipo Deus.
B - Acho mais interessante o politeísmo. Dois deuses a actuar na mesma cidade, um no Passeio Marítimo, outro no Campo Pequeno. Não é todas as noites.
A - Deve ter a sua piada ver dois deuses na sua fase «fall», um a cair ao Tejo e o outro a ser atacado e derrubado por um touro em plena arena.
B - Bem visto, mas eu gosto é da música deles, rapaz. E ainda não sei realmente como vou fazer. Talvez sequestre os dois e os mantenha reféns num banquete, a cantarem para os privilegiados presentes, em simultâneo, o «Venus In Furs» e o «Hallelujah». A compleição: carne e espírito em harmonia, a cruzarem-se.
A - Isso não daria alta cacofonia?
B - Estragaste-me a imagem. Não tens o dom da ubiquidade, mas tens o poder do realismo contigo.
A - Ouve, e que tal ires a outro concerto, para não estares num a pensar o quanto darias para estar no outro.
B - Mmm... Olha... Tricky, em Gaia. Talvez seja uma boa ideia.
A - É manhoso, mas tu é que sabes.
B - Quem? O quê? Gaia ou o Tricky?
A - Sei lá o que é isso. É o bacano que canta «Tricky Tricky, dá-lhe!»?
B- Cheira-me que não. Isso de que falas é mais erudito e cheira melhor.
A - Cuidado! Gaia é só gunas.
B - Mas eu vou é para as dunas. O concerto é na praia.
A - E quem te garante que não há gunas nas dunas?
B - E se houver? (...) «Hell is around the corner»...
A - «Que medo!». «Eu sou tão mau»... Pensando bem, as dunas têm esquinas?
B - Não. Têm outras coisas... alcatrão sujo, entre outras coisas...
Café & Cigarros
Um cigarro
E
Um café
Encontram-se à beira-rio.
E um peixe subiu à tona e disse:
- Quero fumar-te cigarro.
- Quero beber-te café.
Mas
O cigarro e o café,
Já tinham perecido pelas mãos
De Tom Waits,
Que,
Não esperou pelo peixe.
Apenas lhe deixou uma pirisca mal apagada
E uma chávena entornada.
(Texto fanado ao Ed Ude, enquanto ele foi ao quadro escrever o «Sumário»)
E
Um café
Encontram-se à beira-rio.
E um peixe subiu à tona e disse:
- Quero fumar-te cigarro.
- Quero beber-te café.
Mas
O cigarro e o café,
Já tinham perecido pelas mãos
De Tom Waits,
Que,
Não esperou pelo peixe.
Apenas lhe deixou uma pirisca mal apagada
E uma chávena entornada.
(Texto fanado ao Ed Ude, enquanto ele foi ao quadro escrever o «Sumário»)
13.7.08
Da(s) pena(s)
Numa mesa de um bar, depois de algumas minis «emborcadas» e empalhadas nos intestinos de cada um, dois homens e uma mulher conversam «porreiramente»:
(...)
Homem 1 (p/ Homem 2): Que pena não seres gay!
Homem 2 sorri.
(...)
Mulher 1: Que pena seres gay.
Homem 2, sorrindo, diz (p/ Homem 1 e Mulher 1): Sabem, na atracção, estou-me nas tintas para os géneros. Eu é mais pão. Agora a sério, eu é mais pessoas interessantes que «clicam» e tal. Tenho muita pena, e espero que não fiquem zangados, mas nenhum de vocês me atrai assim e coiso, percebem?, sobremaneira...
Mulher 1: E eu tenho muita pena, mas entendeste tudo mal.
Homem 2: Idem, rapaz. Paz.
Um segundo depois, a Mulher 1, o Homem 1 e o Homem 2 riem, desalmadamente. Sem maneiras e sem peneiras. Sem penas e sem pena.
(...)
Homem 1 (p/ Homem 2): Que pena não seres gay!
Homem 2 sorri.
(...)
Mulher 1: Que pena seres gay.
Homem 2, sorrindo, diz (p/ Homem 1 e Mulher 1): Sabem, na atracção, estou-me nas tintas para os géneros. Eu é mais pão. Agora a sério, eu é mais pessoas interessantes que «clicam» e tal. Tenho muita pena, e espero que não fiquem zangados, mas nenhum de vocês me atrai assim e coiso, percebem?, sobremaneira...
Mulher 1: E eu tenho muita pena, mas entendeste tudo mal.
Homem 2: Idem, rapaz. Paz.
Um segundo depois, a Mulher 1, o Homem 1 e o Homem 2 riem, desalmadamente. Sem maneiras e sem peneiras. Sem penas e sem pena.
Fraudulentamente
1.
Se Frau Anna fosse mamã
se fosse mamã essa oleosa e dolente baleia alemã
essa fofa e balofa baleia alemã
essa anafada baleia sem ama nem fada
essa anafada baleia sem mana nem nada
essa anafada baleia semana a semana cevada
se Frau Anna fosse mamã...
Mas era uma baleia alemã
essa fofa e balofa baleia
de ascendência gaulesa
sempre estendida no seu maple
mastigando sua aple
com um pé sobre a mesa
essa fofa e balofa baleia
de ascendência gaulesa.
2.
Sua mente lenta lentamente
se movia diante de seu movie
quando moveu de vez.
«Frau du Lent»
chamaram os vizinhos
passados três dias
estranhando a ausência.
Vieram os bombeiros:
na TV chovia
e por detrás das lentes
Frau du Lent ainda sorria
«Mente, Frau du Lent.
Não nota mas está morta.
É uma estranha coincidência?
Olhe, paciência!»
(Ass: PC)
Se Frau Anna fosse mamã
se fosse mamã essa oleosa e dolente baleia alemã
essa fofa e balofa baleia alemã
essa anafada baleia sem ama nem fada
essa anafada baleia sem mana nem nada
essa anafada baleia semana a semana cevada
se Frau Anna fosse mamã...
Mas era uma baleia alemã
essa fofa e balofa baleia
de ascendência gaulesa
sempre estendida no seu maple
mastigando sua aple
com um pé sobre a mesa
essa fofa e balofa baleia
de ascendência gaulesa.
2.
Sua mente lenta lentamente
se movia diante de seu movie
quando moveu de vez.
«Frau du Lent»
chamaram os vizinhos
passados três dias
estranhando a ausência.
Vieram os bombeiros:
na TV chovia
e por detrás das lentes
Frau du Lent ainda sorria
«Mente, Frau du Lent.
Não nota mas está morta.
É uma estranha coincidência?
Olhe, paciência!»
(Ass: PC)
9.7.08
Sabrina goes Crash (Conto Erótico)
«Viemo-nos»
Do jardim da Celeste.
Depois de deixarmos
O Tomás na creche.
No regresso,
Na rádio, ouvimos «bolsa»,
No regresso,
Na rádio, ouvimos «crash».
Depois viemos com a voz do Caetano,
Em loop, nada veloz.
Em loop, nada veloz.
A avisar, num verossímil português de Portugal:
«Estou-me a vir».
E nós virámo-nos um para o outro, sem avisar.
Deixámo-nos no carro.
Abandonámo-nos, no carro.
E ele, o Caetano, nada veloz, acrescia, cantando:
«E tu, como é que te tens por dentro?»
«Porque não te vens também?»
Por momentos,
Perdemo-nos na nossa própria rua,
Em nós.
O som da rádio cruzava-se com um buzinão,
Na nossa retaguarda.
Nós que sempre trepávamos
E que sempre pugnámos pela vanguarda.
Atordoados,
Num piscar de olhos,
Abrimos os olhos.
Estávamos a leste.
Eu desço, ele desce,
Tu desces...
À tenra e entediante terra.
Pisca para a direita.
Chegamos a casa.
Minutos depois,
Chegamos, finalmente,
A nós,
Eu veloso.
Tu veloz.
Juntos,
Tu a ti,
Eu a mim,
Ao ver a mais compenetrante colisão do...
Do jardim da Celeste.
Depois de deixarmos
O Tomás na creche.
No regresso,
Na rádio, ouvimos «bolsa»,
No regresso,
Na rádio, ouvimos «crash».
Depois viemos com a voz do Caetano,
Em loop, nada veloz.
Em loop, nada veloz.
A avisar, num verossímil português de Portugal:
«Estou-me a vir».
E nós virámo-nos um para o outro, sem avisar.
Deixámo-nos no carro.
Abandonámo-nos, no carro.
E ele, o Caetano, nada veloz, acrescia, cantando:
«E tu, como é que te tens por dentro?»
«Porque não te vens também?»
Por momentos,
Perdemo-nos na nossa própria rua,
Em nós.
O som da rádio cruzava-se com um buzinão,
Na nossa retaguarda.
Nós que sempre trepávamos
E que sempre pugnámos pela vanguarda.
Atordoados,
Num piscar de olhos,
Abrimos os olhos.
Estávamos a leste.
Eu desço, ele desce,
Tu desces...
À tenra e entediante terra.
Pisca para a direita.
Chegamos a casa.
Minutos depois,
Chegamos, finalmente,
A nós,
Eu veloso.
Tu veloz.
Juntos,
Tu a ti,
Eu a mim,
Ao ver a mais compenetrante colisão do...
8.7.08
O Betão
O betão armado também pode ser amado.
O betão não é uma ilusão.
O betão armado não tem armas para dar e vender.
O betão aparente não é vaidoso.
O betão branco não é racista nem tem falta de hemoglobina
O betão tem um senão:
Não lhe batas com a cabeça, podes partir um rim.
(Outro texto ripado do colega do lado, o Ed Ude, desta vez para entregar ao prof. de Matemática)
O betão não é uma ilusão.
O betão armado não tem armas para dar e vender.
O betão aparente não é vaidoso.
O betão branco não é racista nem tem falta de hemoglobina
O betão tem um senão:
Não lhe batas com a cabeça, podes partir um rim.
(Outro texto ripado do colega do lado, o Ed Ude, desta vez para entregar ao prof. de Matemática)
O Sr. Torto
O nariz do Sr. Torto era direito,
mas todo o resto do seu corpo era torto,
como o próprio nome do Sr. Torto o indicava.
Logo, o nariz do Sr. Torto parecia oblíquo!
É de referir que o Sr. Torto era de direita,
Mas com algumas ideologias de esquerda.
(Texto copiado pelo colega do lado, o Ed Ude, para entregar à prof. de Ciências da Natureza)
mas todo o resto do seu corpo era torto,
como o próprio nome do Sr. Torto o indicava.
Logo, o nariz do Sr. Torto parecia oblíquo!
É de referir que o Sr. Torto era de direita,
Mas com algumas ideologias de esquerda.
(Texto copiado pelo colega do lado, o Ed Ude, para entregar à prof. de Ciências da Natureza)
7.7.08
Intertextualidade (I)
Disseram-lhe, um dia, que pecado era
Dizer que pecado não existe.
Um dia, disse-lhes ele:
Pecado é dizer que existe pecado, pecado não existindo.
«Sou ateu, graças a Deus»
(Luís Buñuel, cineasta surrealista e muito-mais-que-nós-não-soubemos)
Dizer que pecado não existe.
Um dia, disse-lhes ele:
Pecado é dizer que existe pecado, pecado não existindo.
«Sou ateu, graças a Deus»
(Luís Buñuel, cineasta surrealista e muito-mais-que-nós-não-soubemos)
Enquanto...
Enquanto a humanidade suava ao erguer a Torre de Babel,
Ele magicava uma versão remota do que viria a ser o papel,
Enquanto Arruda projectava a Torre de Belém,
Ela imaginava como viria a ser o sabor de um pastel de Belém.
Enquanto Qin Shihuang ordenava a construção da Grande Muralha da China,
Ela evadia-se da China.
Enquanto Sísifo carregava a pedra, rotineira e incessantemente,
Ele criava sobre a pedra, para quebrar a monotonia,
Para vislumbrar mais do que um mero tom.
E ao morrer,
Ele bradava : «sem qualquer ofensa, monos são os macacos».
E enquanto sucumbia,
Nascia, a seu lado, um orangotango.
Ele magicava uma versão remota do que viria a ser o papel,
Enquanto Arruda projectava a Torre de Belém,
Ela imaginava como viria a ser o sabor de um pastel de Belém.
Enquanto Qin Shihuang ordenava a construção da Grande Muralha da China,
Ela evadia-se da China.
Enquanto Sísifo carregava a pedra, rotineira e incessantemente,
Ele criava sobre a pedra, para quebrar a monotonia,
Para vislumbrar mais do que um mero tom.
E ao morrer,
Ele bradava : «sem qualquer ofensa, monos são os macacos».
E enquanto sucumbia,
Nascia, a seu lado, um orangotango.
A(s) Utopia(s) de Esperando Persona
A minha mátria-pátria é a-o esperanto. Ou, em alternativa, o silêncio ou a língua gestual.
(escreve Esperando Persona neste momento, esperando a legitimação e a aplicação de, pelo menos, um, dois ou três idiomas, oficiais e não-oficiais, transversais a todos os comunicantes do globo)
(escreve Esperando Persona neste momento, esperando a legitimação e a aplicação de, pelo menos, um, dois ou três idiomas, oficiais e não-oficiais, transversais a todos os comunicantes do globo)
6.7.08
Era uma vez...
Um caso
Casado
Com o acaso,
Que,
Por sua vez,
Teve um caso casual
Com outro caso.
Caso não fossem estes casos dois discretos casos casados.
Teriam, possivelmente, em mãos, um caso bem bicudo.
A - Caso ainda não tenhas percebido, este caso morreu aqui! Não quero dar azo a um outro caso mais chato... seria chato, entendes?
B - Por acaso, ia pedir-te o mesmo. Não se vá dar o caso de ter que descasar, caçar, cansar e casar, de novo, ao acaso.
A - Ah, só mais uma coisa: e, por favor, quando passares por mim, peço-te que não faças cara de caso.
B - Caso encerrado.
Casado
Com o acaso,
Que,
Por sua vez,
Teve um caso casual
Com outro caso.
Caso não fossem estes casos dois discretos casos casados.
Teriam, possivelmente, em mãos, um caso bem bicudo.
A - Caso ainda não tenhas percebido, este caso morreu aqui! Não quero dar azo a um outro caso mais chato... seria chato, entendes?
B - Por acaso, ia pedir-te o mesmo. Não se vá dar o caso de ter que descasar, caçar, cansar e casar, de novo, ao acaso.
A - Ah, só mais uma coisa: e, por favor, quando passares por mim, peço-te que não faças cara de caso.
B - Caso encerrado.
Organol
Regámos a álcool etílico o cérebro deles
Tudo para o seu bem
Magicámos uma revolução limpa, sem sangue.
Com lavagem especial e tudo. Cerebral e grátis.
Nutrimos a sua imaginação com ratos hiperactivos
E, finda a labuta, dançamos uma valsa crepuscular
Somos maestros incontinentes de epifanias
De sequências orgásticas de um cinema que se muda, mudo.
Há escarros nas paredes pintadas de fresco
E um camião de feno para forrar o nosso curral
Um lupanar de mulheres eternamente virgens?
Sim, é possível, idiota.
A verdadeira transgressão.
Edificámos uma casa de papel
Para sessões de wrestling, pitorescas
Vendemos bilhetes à porta, trocos nos bolsos
E como souvenir, distribuímos pontas de cabelos deixadas no ringue
Tudo para o seu bem
Magicámos uma revolução limpa, sem sangue.
Com lavagem especial e tudo. Cerebral e grátis.
Nutrimos a sua imaginação com ratos hiperactivos
E, finda a labuta, dançamos uma valsa crepuscular
Somos maestros incontinentes de epifanias
De sequências orgásticas de um cinema que se muda, mudo.
Há escarros nas paredes pintadas de fresco
E um camião de feno para forrar o nosso curral
Um lupanar de mulheres eternamente virgens?
Sim, é possível, idiota.
A verdadeira transgressão.
Edificámos uma casa de papel
Para sessões de wrestling, pitorescas
Vendemos bilhetes à porta, trocos nos bolsos
E como souvenir, distribuímos pontas de cabelos deixadas no ringue
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