Num moliceiro parti rumo ao Douro.
Às portas do Douro, disseram-me que, de moliceiro, ali não poderia entrar.
Tentei navegar de rabelo no Mondego.
Mas que raio de ideia fui eu ter!
Um «não» em jeito de estalada tradicionalista: «não venha cá promiscuir o puro vernáculo».
Às tantas, perguntei eu:
«Então, não estamos na época cristalina da livre circulação de pessoas e bens?»
Responderam-me:
«Sim, mas há que separar as águas. Percebe?».
E eu ripostei:
«Então, e as embarcações de recreio e turismo não típicas? Podem navegar em qualquer rio?».
Resposta: «Ah, essas são neutras e são para o bem do progresso».
E lá tive eu, sentindo a injustiça e a incompreensibilidade sibilante sobre os ombros, que portar cada barco às costas, para o seu respectivo habitat natural, e engolir em seco.
25.9.08
20.9.08
A morte branca do Homem das Neves
Em plena montanha vestida de manto branco gélido, já roxo, a morrer à fome, encontra-se J.C. das Neves, um humilde neoliberal, católico convicto e homem que equipara a homossexualidade à pedofilia e à bestialidade. Está só. Perdeu-se dos seus parceiros de expedição, na escalada a uma secção recôndita dos Himalaias. Eis que sobre si voa um helicóptero, que se vai aproximando do pobre homem cuja morte parece iminente.
J.C. das Neves pensa que vem a caminho a sua salvação, a prova palpável de que Deus existia, como sempre pregara num país longínquo chamado Portugal. Todavia, com voz muito enfraquecida, frouxa, surpreende o piloto com uma avalanche de questões.
Pergunta-lhe J.C. das Neves:
- É católico?
O piloto não responde, mas estende-lhe uma mão.
- Digna-se a ser, pelo menos, neoliberal?
O piloto reage, acelerado, em inglês: «Entre, senhor, tenho aqui umas barras de chocolate e agasalho. Não quer morrer, pois não?»
J.C.das Neves, a um dedo de ser salvo, sente a necessidade extrema de perguntar ao seu interlocutor:
- Are you homossex...?
E o pobre J.C. Neves morre ali, a meio da pergunta, sobre gélidas neves.
J.C. das Neves pensa que vem a caminho a sua salvação, a prova palpável de que Deus existia, como sempre pregara num país longínquo chamado Portugal. Todavia, com voz muito enfraquecida, frouxa, surpreende o piloto com uma avalanche de questões.
Pergunta-lhe J.C. das Neves:
- É católico?
O piloto não responde, mas estende-lhe uma mão.
- Digna-se a ser, pelo menos, neoliberal?
O piloto reage, acelerado, em inglês: «Entre, senhor, tenho aqui umas barras de chocolate e agasalho. Não quer morrer, pois não?»
J.C.das Neves, a um dedo de ser salvo, sente a necessidade extrema de perguntar ao seu interlocutor:
- Are you homossex...?
E o pobre J.C. Neves morre ali, a meio da pergunta, sobre gélidas neves.
Avé Maria (Versão Gnóstica)
Avé Maria
Madalena.
Cheia de graça,
Quando piscas o olho ao transeunte curioso.
O senhor é contigo,
Mesmo quando eles o negam.
Maldita és entre as mulheres,
Quando apenas lutas pela sobrevivência,
E mal anda a ser dito o fruto belo da tua relação com Jesus.
Puta Maria,
Dizem eles,
Mulher de deus,
Rogai por eles, deturpadores,
Agora e na hora da tua corajosa vida.
Amén.
Nunca dirás tu.
Madalena.
Cheia de graça,
Quando piscas o olho ao transeunte curioso.
O senhor é contigo,
Mesmo quando eles o negam.
Maldita és entre as mulheres,
Quando apenas lutas pela sobrevivência,
E mal anda a ser dito o fruto belo da tua relação com Jesus.
Puta Maria,
Dizem eles,
Mulher de deus,
Rogai por eles, deturpadores,
Agora e na hora da tua corajosa vida.
Amén.
Nunca dirás tu.
18.9.08
Alarmes
Notícias de última hora. A crise chega a todos. Agora são os gatunos franceses a queixarem-se. «À les armes, à les armes!», gritaram, na rua, duas centenas, ontem à tarde, na cidade de Paris. De facto, a apreensão indiscriminada de armas ilegais está a causar grande apreensão entre assaltantes à mão armada e demais criminosos que recorrem ao utensílio para o seu ofício. O sindicato dos meliantes já veio a público manifestar o seu desagrado em relação à medida do governo (segundo os seus representantes, desmedida) e ameaça que os assaltos poderão vir a ser praticados, em breve, à mão desarmada. Por sua vez, esta ameaça está a causar grande apreensão entre os carteiristas que temem o crescimento desmedido da concorrência. «Já não bastava as bolsas terem baixado a níveis inconcebíveis até para a mão dos mais hábeis - quanto mais para os que o fazem por esticão -, vêm agora estes espertalhões que não têm onde cair mortos invadir-nos o território. Que usem pistolas de alarme, merde! Não venham é cá estragar-nos o negócio!», dizia ontem, um reconhecido carteirista que actua na zona de Montmartre.
(Colaboração de PC)
(Colaboração de PC)
17.9.08
É a crise!
Enquanto o governador do Banco Central Almonês, Bill Habil, ordena a injecção de uns vigorosos milhões de dólares no mercado monetário do seu país, o seu único herdeiro injecta cavalo numa veia do seu abono de família, após inalar, com o auxílio de uma nota de dólar, uma dose de coca, que, segundo o qualquer-coisa-dependente («Ezra Pound» Habil, para os amigos), dá para se «governar» durante um dia. Pai e filho andam com valentes dores de cabeça, devido à crise.
Chegado a casa, no termo do dia mais doloroso da sua governação, Bill Habil, à procura de um escape possível, entrega-se ao seu maior vício: andar a cavalo.
Chegado a casa, no termo do dia mais doloroso da sua governação, Bill Habil, à procura de um escape possível, entrega-se ao seu maior vício: andar a cavalo.
16.9.08
A Morte Melancólica da Rima-Que-Não-Sorria
Era uma vez uma rima que de si fugir queria,
porque, quando ao rimar, se feria.
Ansiava, dizia ela, ir de férias de si.
Partir, daqui para ali.
Passar de Si bemol para Si.
As náuseas causavam-lhe náuseas.
A rima já não sorria, nem se ria.
Aliás, quando se via ao espelho, fugia.
Repetia-se a todo o instante.
As aliterações eram uma constante, redundante.
Rodopiava numa espiral espiral espiral inesgotável de rimas.
Tentou e tentou e tentou de tudo para de si se esquivar.
Tudo por uma causa:
Evitar rimar.
E o que fez naquela vez?
A rima aplicou-se: aplicou rimel.
E da outra vez?
Outras coisas que nunca fizera:
Rasgou todo e qualquer escrito em papel.
Ela sabia que a rima escrita era o seu fel.
E também dançou rumba.
E eis que, finalmente, conseguiu a fuga,
Ao morrer sobre uma tumba.
porque, quando ao rimar, se feria.
Ansiava, dizia ela, ir de férias de si.
Partir, daqui para ali.
Passar de Si bemol para Si.
As náuseas causavam-lhe náuseas.
A rima já não sorria, nem se ria.
Aliás, quando se via ao espelho, fugia.
Repetia-se a todo o instante.
As aliterações eram uma constante, redundante.
Rodopiava numa espiral espiral espiral inesgotável de rimas.
Tentou e tentou e tentou de tudo para de si se esquivar.
Tudo por uma causa:
Evitar rimar.
E o que fez naquela vez?
A rima aplicou-se: aplicou rimel.
E da outra vez?
Outras coisas que nunca fizera:
Rasgou todo e qualquer escrito em papel.
Ela sabia que a rima escrita era o seu fel.
E também dançou rumba.
E eis que, finalmente, conseguiu a fuga,
Ao morrer sobre uma tumba.
5.9.08
São ganzas, senhor, são zangas
quando era garota e namorava tinha zangas por causa de ganzas o meu namorado era ganzado e eu ficava zangada porque ganzado não tinha piada e ele ficava zangado porque eu estava zangada por ele estar ganzado e era cada zanga por causa de uma ganza que mais valia estar ganzada e não zangada pois eu ganzada e ele ganzado e os dois ganzados e nenhum zangado não haveria mais zangas por causa de ganzas e seríamos os dois ganzados, não mais zangados!!
(Colaboração de CO)
(Colaboração de CO)
3.9.08
Reinventário
A Natália Correia deitou uma correia para o lixo num Natal, a ouvir a Amália.
O Steve Vai vai ou esteve para ir e vir-se ao/ no Havai.
Com o Salazar, tivemos Saló e azar salgado.
Salgueiro Maia permitiu-nos um belo Maio.
O Tóo Zé Brito cabritou-se, depois de piscar o olho a uma cabrita, e perdeu uma chance.
O Quaresma absteve-se de qualquer trivela na passada Quaresma.
O Ary dos Santos escreveu «A Tourada» em Santos, num dia árido, como outros tantos.
O Rosa Casaca tinha um cravo escondido num dos bolsos das calças.
A Billie Holiday (que era bi) passou férias atrás de férias a esfregar o chão, enquanto a sua habilidade para cantar não era ouvida.
O Cristiano Ronaldo tem uma irmã chamada Crist&Ana Ronalda.
A Di-Ana Chaves descobriu a palavra-chave do mail do namorado e descobriu que ele ama outra, a encoberta Diana Almada.
E o Almada Negreiros magicou pintar de negro todos os prédios da Margem Sul.
O Steve Vai vai ou esteve para ir e vir-se ao/ no Havai.
Com o Salazar, tivemos Saló e azar salgado.
Salgueiro Maia permitiu-nos um belo Maio.
O Tóo Zé Brito cabritou-se, depois de piscar o olho a uma cabrita, e perdeu uma chance.
O Quaresma absteve-se de qualquer trivela na passada Quaresma.
O Ary dos Santos escreveu «A Tourada» em Santos, num dia árido, como outros tantos.
O Rosa Casaca tinha um cravo escondido num dos bolsos das calças.
A Billie Holiday (que era bi) passou férias atrás de férias a esfregar o chão, enquanto a sua habilidade para cantar não era ouvida.
O Cristiano Ronaldo tem uma irmã chamada Crist&Ana Ronalda.
A Di-Ana Chaves descobriu a palavra-chave do mail do namorado e descobriu que ele ama outra, a encoberta Diana Almada.
E o Almada Negreiros magicou pintar de negro todos os prédios da Margem Sul.
2.9.08
O Home
Era uma vez um home.
O home tinha fome.
O home foi a casa d'otro home
e pediu qualquer coisa p'ra matar a fome,
mas o otro home disse ao home:
«Em casa deste home
quem não trabalha, não come».
E o home foi ter com otro home
e voltou a pedir para matar a fome.
E o otro home, que era home de fome,
disse a este home que tamém tinha fome:
«Se tens fome, mata um home.
Se ele for gordo, come-o todo;
se ele for magro, deixa-lo rabo».
E o home matou o home que tinha fome.
E o home comeu o home que tinha fome.
Mas como o otro home tamém tinha fome
era um home magro; por isso, deixô-le o rabo.
Chegou a nôte e o home ficou com frio
e então foi pedir abriguio.
«Se tens frio, mete o cu no rio
e pede ao teu tio que te dê um assobio»,
disse um home chamado Pedro.
O home pensou que lhe tinham descoberto
o cu do home com fome que tinha comido
e atirado ao rio; quanto ao assobio,
tinha um tio que era polícia e destemido.
E o home ficou a tremer de medo.
«Tens medo do cagalhão que está quedo»,
disse-lhe o home que se chamava Pedro.
Esse Pedro era grandalhão e estava quedo,
pelo que o home teve um arrepio,
por ser um home esguio
e estar com muito muito frio.
«Se tens frio, mete o cu no rio...»,
recomeçou o home que se chamava Pedro.
Mas nessa altura já o home não tinha medo
porque a fome era maior que o home,
maior que o frio, maior que o Pedro.
Por isso, farto de tanto arremedo,
comeu o home que se chamava Pedro.
E comeu-o todo,
porque ele era gordo.
(Colaboração de PC)
O home tinha fome.
O home foi a casa d'otro home
e pediu qualquer coisa p'ra matar a fome,
mas o otro home disse ao home:
«Em casa deste home
quem não trabalha, não come».
E o home foi ter com otro home
e voltou a pedir para matar a fome.
E o otro home, que era home de fome,
disse a este home que tamém tinha fome:
«Se tens fome, mata um home.
Se ele for gordo, come-o todo;
se ele for magro, deixa-lo rabo».
E o home matou o home que tinha fome.
E o home comeu o home que tinha fome.
Mas como o otro home tamém tinha fome
era um home magro; por isso, deixô-le o rabo.
Chegou a nôte e o home ficou com frio
e então foi pedir abriguio.
«Se tens frio, mete o cu no rio
e pede ao teu tio que te dê um assobio»,
disse um home chamado Pedro.
O home pensou que lhe tinham descoberto
o cu do home com fome que tinha comido
e atirado ao rio; quanto ao assobio,
tinha um tio que era polícia e destemido.
E o home ficou a tremer de medo.
«Tens medo do cagalhão que está quedo»,
disse-lhe o home que se chamava Pedro.
Esse Pedro era grandalhão e estava quedo,
pelo que o home teve um arrepio,
por ser um home esguio
e estar com muito muito frio.
«Se tens frio, mete o cu no rio...»,
recomeçou o home que se chamava Pedro.
Mas nessa altura já o home não tinha medo
porque a fome era maior que o home,
maior que o frio, maior que o Pedro.
Por isso, farto de tanto arremedo,
comeu o home que se chamava Pedro.
E comeu-o todo,
porque ele era gordo.
(Colaboração de PC)
Subscrever:
Mensagens (Atom)