21.12.09

la «boleia»

esperou, esperou, esperou,
horas a fio,
na berma da estrada,
por que um dos milhares de carros e carrinhas e motas que passavam por si parasse,
por que uma alma não desconfiada, empática, piedosa ou aventureira lhe desse uma boleia.

estava esfomeado, desidratado,
lábios a ressequir ao sol,
fatigado,
a 45kms do povoado mais próximo,
tinha um travão nas pernas.
era um homem nos seus 61 anos,
talvez 61 e 2 meses.
talvez menos 2 dias e uma tarde.

desprezado o seu polegar por uma série de ambulâncias - em fila a caminho de uma cerimónia qualquer - que dele se abeiravam, tranquilas,
decidiu tombar o corpo franzino para a frente da próxima que com ele se cruzasse.

afinal, alguém teria que o tirar dali, vivo ou morto.
para ele, naquele momento, o estado era irrelevante.
ele só queria uma boleia,
transitar, mover-se,
vivo ou morto.

a carrinha ambulante, sem urgência, trava a fundo,
evitando um atropelamento,
mas o homem morre, à sua frente, de hipohidratação.

20.12.09

notas de uma viagem de marie delmonde

(no comboio, a caminho de budapeste)

deixa-me
uma nota de quantos dólares quiseres.
sabes bem que não sou puta, nem proxeneta,
e se o sou, não uma qualquer.

nem sequer me interesso pelo vil capital.
digamos que:
gosto de coleccionar,
arquivar notas.
as de despedida,
sobre o rosto de churchill,
de um rei qualquer,
ou sobre o mapa da europa.
são histórias.
é História.

peço-te que ma deixes
sob o soutien,
enquanto durmo,
antes de me deixares.
não te peço que nela espalhes tinta.
deixo-te esta pequena nota:
as tuas impressões digitais bastam-me.
para parecer mais real,
do teu dedo mais sujo.
antes de partires para o outro vagão.

tenho um cigarro, a arder, entre os dedos dos pés.
dormito, no exponencial + infinito do potencial.
mas não tenho memória, nem papel para apontar tamanha torrente.
e há uma criatura que mo impede.
me pede: «não o faças».
«lúcida, não suportarias tal baque», remata.
travo-me.


o meu umbigo é:
um buraco entre a fantasia e o verbo.
nunca haverá sobre ele ponte por onde se passe,
sem se cair ao mar, daquele que engole.
nunca haverá ponta por onde se pegue.
ponto.
só uma ponta do cigarro na ponta dos meus dedos,
a arder.
a arder.

7.12.09

Proib!

Sentido!

Sentido,
Sinal
Banal
Vertical
Proibido.


(Vamos lá, então, às palavras de ordem!)


É proibido proibir!
Proibido proibir proibições!

É proibido privações!
Proibido proibir privações!



(Agora, um pouco de Bíblia no divã)

O fruto proibido está podre, à porta da tua boca.
Não é proibido comê-lo.
Pelo contrário, proibido é não comê-lo!



(Agora, venham lá as lições de moral sadias!)

Proíbe-me tudo, menos o masoquismo!
Menos o masoquismo, ouviste?
Rasga-me o pescoço!
Proibo-te apenas de não me rasgares o pescoço!
Só essa proibição liberta.
Se és masoquista, compreenderás.


(Por fim, lirismo amador e uma questão legal)

Sentido proibido,
Caído no chão.
Proibido calcar!
Proibido contornar!
Proibido sobrevoar!
E mais: não sabem vocês que é proibido roubar sinais proibidos?
Porquê?

Proibido pensar!